Allan Kardec declara que «o dogma da reencarnação está baseado sobre a justiça de Deus e a revelação »1 ; acabamos de mostrar que, destas duas razões para acreditar, a primeira não poderia ser invocada validamente; quanto à segunda, como quer falar evidentemente da revelação dos «espíritos», e como estabelecemos precedentemente que é inexistente, não temos que voltar sobre isso. Não obstante, ainda não se trata mais que de observações preliminares, já que, do fato de que não se veja nenhuma razão para admitir uma coisa, não se segue forçosamente que essa coisa seja falsa; também se poderia permanecer a seu respeito em uma atitude de dúvida pura e simples. Ademais, devemos dizer que as objeções que se formulam ordinariamente contra a teoria reencarnacionista não são apenas mais fortes que as razões que se invocam por outra parte para apoiá-la; isto se deve, em grande parte, a que adversários e partidários da reencarnação se colocam por igual, o mais frequentemente, sobre o terreno moral e sentimental, e a que as considerações desta ordem não poderiam provar nada. Podemos retomar aqui a mesma observação que no que concerne à questão da comunicação com os mortos: em lugar de perguntar-se se isso é verdadeiro ou falso, que é a única coisa que importa, discute-se para saber se isso é ou não é «consolador», e se pode discutir assim indefinidamente sem avançar mais por isso, posto que isso é um critério puramente «subjetivo», como diria algum filósofo. Felizmente, há muito mais que se dizer contra a reencarnação, posto que se pode estabelecer sua impossibilidade absoluta; mas, antes de chegar aí, devemos tratar ainda outra questão e precisar algumas distinções, não só porque são muito importantes em si mesmas, mas também porque, sem isso, alguns poderiam surpreender-se de nos ver afirmar que a reencarnação é uma ideia exclusivamente moderna. Há muitas confusões e noções falsas que têm curso há um século como para que muitas pessoas, inclusive fora dos meios «neo-espiritualistas», não se encontrem gravemente influenciados por elas; esta deformação chegou inclusive a um ponto tal que os orientalistas oficiais, por exemplo, interpretam correntemente em um sentido reencarnacionista textos nos quais não há nada disso, e que se tornaram completamente incapazes de compreendê-los de outra maneira, o que equivale a dizer que não compreendem absolutamente nada.
NOTAS: